Lembranças de Taguatinga

Lembranças de Taguatinga

Carlos Max

Quando cheguei a Taguatinga, com 12 anos de idade, em janeiro de 1962, a cidade estava em pleno começo de sua saga. Era como se eu estivesse no “velho oeste” americano. Ruas com troncos, tocos e raízes de árvores. Poeira à vontade. Casas, ou melhor, barracos só de madeira. Quem entrasse ou ocupasse um lote vazio era “dono do imóvel” e estamos conversados. Quando chovia era para valer, por vezes um mês inteiro sem parar. Na época da seca, era vento derrubando os telhados dos barracos. Taguatinga ia até a Farmácia Virgem da Vitória, no setor norte, nas proximidades do Colégio de Taguatinga Norte.

Comecei estudando no Colégio Stela Maris, católico, no quarto ano primário. Depois fui cursar o ginásio numa escola de verdade. A Escola Industrial 1. As autoridades educacionais de hoje deveriam rever o passado e aprender como se fazia educação pública de qualidade. A Escola Industrial era, como o próprio nome dizia implicitamente, uma formadora de profissionais.

Com dois turnos. O aluno entrava as 7h30m da manhã. Almoçava, depois tomava um lanche reforçado, no meio da tarde, e só no final do dia, depois das 17h, voltava para casa. E o que os alunos faziam o dia inteiro na Escola. Estudavam e aprendiam uma profissão. Eu, por exemplo, aprendi ser marceneiro, impressor gráfico e torneiro. As aulas práticas eram oferecidas pela manhã. À tarde o ensino tradicional.

A equipe de professores, de extraordinária competência, era oriunda do Paraná. A Escola tinha quadra de basquete, voleibol, futebol de salão (o hoje moderno futsal) e campo de futebol. Ping pong (hoje tênis de mesa) para quem quisesse se divertir. Educação Física para valer com professor e equipamentos. Hoje em dia o aluno se esconde na hora de fazer atividades físicas. Quando o colégio oferece a matéria, e quando o aluno a pratica, nas escolas públicas, as condições são de verdadeira indigência.

Para se ter idéia de como a Escola Industrial era bem equipada, eu, por ser canhoto, quando fui manejar a impressora, ganhei uma máquina exclusiva para mim. Um verdadeiro luxo. E o estudante ainda podia aprender xadrez com supervisão de especialistas. Igualzinho aos colégios públicos de hoje, não é mesmo?.

Naquele tempo não existia ministro da Educação maluco que manda distribuir livros com erros gramaticais grosseiros e outros com a forma errada de fazer divisão e subtração. Não. Definitivamente, não. Lá na Escola Industrial aprendia-se o Latim, pelo menos o básico, para que a gente pudesse entender a língua mater. A base para saber o bom português.

Bom, tudo ia às mil maravilhas até que… Veiu o Movimento Militar de 1964. E sabe o que fizeram com a Escola Industrial?. Acredite, a Polícia Militar de Minas Gerais, conhecida à época por sua truculência, sob a liderança do governador Magalhães Pinto, simplesmente transformou a Escola num quartel. A Escola foi ocupada por longos cinco meses e as suas instalações aviltadas. Muita coisa teve de ser reconstruída, refeita.

Por aí vê-se que a tal Revolução de 64 não poderia mesmo dar em coisa boa. Taguatinga e sua população sobreviveram a esse caos. Mas o ano de 64 foi de medo, apreensão e revolta para jovens e velhos taguatinguenses. Prisões arbitrárias eram feitas. Às vezes para prender um único e solitário homem, a PM mineira ou o Exército levava um caminhão cheio de soldados. Armados até os dentes. Um horror.

Hoje, 53 anos depois de sua fundação, Taguatinga enfrenta outra frustração. Outro medo. O tráfico de drogas e a prostituição, às vezes em pleno centro da cidade. A segurança do cidadão passou a ser um prêmio de poucos. Casas são assaltadas. Carros arrombados e roubados. Uma tristeza. Uma indignação só. A Escola Industrial é hoje um colégio como outro qualquer. Provavelmente com aqueles livros contendo erros gramaticais. E os abnegados professores fazendo das tripas coração para darem conta do recado e ensinar aos jovens que o futuro não é uma miragem. Nem apenas sonho.

Dizem que a fé remove montanhas. Eu, apesar de tudo, ainda tenho fé.

PEQUENA HISTÓRIA DA CIDADE

A cidade de Taguatinga foi a primeira oficialmente criada com o propósito de por fim aos aglomerados humanos denominados invasões que estavam sendo formados na área urbana de Brasília. Foi implantada em 05 de junho de 1958 em terras do município de Luziânia – Goiás, na Fazenda Taguatinga, a oeste de Brasília. Inicialmente foi chamada de Vila Sarah Kubitschek, logo depois Santa Cruz de Taguatinga e quase foi denominada Presidente Kennedy por ocasião da morte do chefe de estado norte americano sendo, então por último, escolhido Taguatinga.

A rigor, tudo começou quando a Cidade Livre (Núcleo Bandeirante) já estava superpovoada e as invasões proliferavam diariamente. Chegou-se ao extremo de se interceptar caminhões na estrada obrigando-os a retornarem às suas cidades de origem. Foi exatamente nas proximidades desse local, no ponto onde hoje existe a via de ligação entre Taguatinga e o Núcleo Bandeirante, que se formou um núcleo habitacional. Tinha aproximadamente mil pessoas, em sua maioria viajantes deixados à beira da estrada pelos motoristas que, impedidos de atingirem Brasília, abandonavam seus passageiros entregues à própria sorte.

O traçado da cidade tinha sido previsto por Lúcio Costa para ser cidade-dormitório para 25 mil habitantes. Deveria nascer 10 anos depois da inauguração de Brasília. No entanto, um fato inesperado precipitou os acontecimentos. No Sábado, dia 31 de maio de 1958, o então presidente Juscelino Kubitschek iria jantar com amigos num dos restaurantes da cidade do Núcleo Bandeirante os migrantes sabendo disso. Eles reuniram grande massa popular empunhando faixas com os seguintes dizeres: Viva a Vila Sara Kubitschek.

O Doutor Israel Pinheiro, na época presidente da NOVACAP, tomando conhecimento do fato, enviou ao local uma comissão que falou à multidão prometendo solucionar imediatamente o problema habitacional, instigando assim, Lúcio Costa a abreviar a conclusão dos projetos da primeira cidade do Distrito Federal.

O médico Ernesto Silva, então executivo da NOVACAP, fez a primeira distribuição de lotes daquela que se denominava a partir de então, Vila Sarah Kubitschek. Em dez dias foram alojados mais de 4.000 (quatro mil) pessoas e todos receberam seus lotes com direito a ocupação. Cerca de 1.000 (mil) fossas foram construídas, a rede provisória de água potável foi instalada, o transporte viário instituído e foi assegurado aos habitantes assistência médica. Aos seis meses já estavam em funcionamento escolas, hospitais e casas para professores.

O topônimo Taguatinga era uma corruptela de Tauá + Tinga, originado do Tupi-Guarani, que significa barro branco, ocorrência geológica que se verifica na região. Algumas pessoas traduziram, equivocadamente, o termo Tauá + Tinga para Ave Branca, que em Tupi-Guarani seria Igra + Tinga e dessa tradução originou-se o símbolo adotado para a cidade de uma ave branca, justificando, assim, a existência de instituições e empresas denominadas Ave Branca.

(Fonte Wikipedia e sites sobre a cidade).

1 comment for “Lembranças de Taguatinga

  1. Ednardo Leão
    30/05/2012 at 19:44

    Parabéns pelo post. Informações muito importantes para moradores de Taguatinga e Brasília.

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